Lá estava ela. Enviesada na cama, mirando o teto mofado de seu quarto que há muito precisava de reforma.
Indiscutivelmente sua vida era um caos, um erro que já durava 28 anos.
O pai morreu assassinado por divida de jogo na porta de sua casa há 13 anos; a mãe desequilibrada foi parar num manicômio e a irmã mais nova juntou-se com um velho rico e estava fora do Brasil.
Pobre mulher! Era uma inútil diante do mundo. Carregava no ombro uma vida traumática e solitária.
Fora uma criança frágil e introspectiva, mas sabia que tudo isso era culpa da própria mãe. Quando ainda tinha saúde mental, a humilhava publicamente por ser tímida, dizia que a menina era boba e que nunca seria nada na vida. Realmente, não era. Mas a mágoa maior era do pai, que preferia sua irmã menor descaradamente. Aos passeios de domingo com as duas meninas exibia a garotinha linda que era sua filha mais nova, deixando-a de lado, quase invisível. Um ou outro de seus amigos a olhava e dizia: “que menininha fofa esta outra”, mas ela sabia que era por dó. Não tinha a metade da graça e do encanto de sua irmãzinha.
Amigos teve dois ou três, mas perdeu o contato quando terminou o segundo grau.
Na escola sempre foi medíocre. Nunca se destacou em nenhuma matéria. Só se destacava na escola por sua magreza exagerada, motivo pelo qual ganhou vários apelidos que preferiu esquecer.
Era medíocre também na vida amorosa. Não era bonita, mas tinha seus encantos. Tinha a pele parda, as canelas finas e o cabelo crespo que armava facilmente, mas tinha seios bonitos. “Ninguém é desgraçado por completo” – pensou ela ainda mirando o teto mofado.
Nunca teve um namorado. Alguns casos, alguns amantes, mas nenhum quis levá-la para conhecer a família, nem planejar um futuro e um “felizes para sempre”.
Sua vida era realmente um caos!
Nunca fora nada para ninguém. Era invisível aos olhos do mundo. Não tinha quem a amasse, não tinha família, não tinha amigos, nunca fora motivo de orgulho para ninguém, sua vida social era ausente e sua vida sexual frustrada. Nos últimos três anos o contato mais íntimo que tinha era com sua depiladora. Achou graça no seu pensamento e começou a gargalhar sozinha. De desespero.
Levantou-se, caminhou pela casa juntando todos os tarjas pretas existentes naquele muquifo, pegou uma garrafa de vodka barata que já estava pela metade e decidira se desfazer da farsa que era sua vida. Colocou o Jim Morrisson para cantar, quis celebrar seus últimos momentos de vida com ele. Voltou para a cama e lentamente foi alternando sua morte: um gole de vodka e um comprimido, um gole de vodka e um comprimido...
Sabia que este seria seu fim. Sabia que quando o efeito viesse não teria vizinhos para socorrer, nem amigos para levá-la ao hospital, era avulsa no mundo.
“This is the end beautiful friend; This is the end My only friend, the end”, cantava Jim aos berros.
Enquanto esperava sua morte olhava para o teto mofado. Não estava arrependida. Sentiu-se grande diante do mundo. Teve orgulho de si mesma.
Só queria se livrar da dor que era viver.
sexta-feira, 29 de maio de 2009
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Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCaralho mila que onda ruim!
ResponderExcluirEspero que esta personagem não seja baseada em vc, porque até onde eu sei vc é bonita e tem amigos! Ah, e seus pais tb estão vivos, ne? hehe.
Mas gostei muito da narrativa :)
Eu só mudaria o suicidio, porque ai provavelmente ela foi encontrada mais tarde inconsciente e foi levada para o hospital, e sofreu muito com a lavagem estomacal e as dores horriveis que isso causa.
Eu tentaria algo mais letal, como uma pistola :)
E trocaria a musica:
Ozzy Osbourne - Suicide Solution - uma boa pedida para quem pensa em findar a vida HAuia.