sábado, 30 de maio de 2009

A little bit Amelie Poulain

A revista Época, desta semana, publicou uma matéria sobre Rogério Gonçalvez Cunha, um "homem-placa" que ganha a vida na Avenida Paulista.

http://revistaepocasp.globo.com/Revista/Epoca/SP/1,,EMI74947-15375,00.html


Além de trabalhar de segunda a sexta, Rogério sai às ruas nos finais de semana levando cartazes com mensagens positivas, engraçadas e criativas com o propósito de melhorar o dia dos que por ali passam.
Até aí tudo bem, é uma história um tanto quanto normal, porém o que me chamou a atenção foi a alegria que este homem tem em desempenhar seu trabalho. Não é um trabalho que lhe proporciona status e muito menos rios de dinheiro, mas é o que deixa em paz seu coração.

É isso, gente! Trabalho também pode — e deve — dar prazer. Sempre me pego pensando em fazer algo que me complete a alma e me dê uma graninha no fim do mês. Não quero muito dinheiro, quero ter felicidade, ter tempo pra fazer outras pessoas felizes, ver o sol nascer, sentir a natureza. Ser um pouquinho Amelie Poulain não faz mal a ninguém.

Será que vale mesmo a pena pessoas se "matarem" por um emprego — a exemplo do programa "O Aprendiz"— com fardos pesadíssimos e humilhações públicas? Concordo que é um caminho muito mais rápido para ganhar um bom dinheiro e se tornar um bam bam bam nos negócios, mas eu, sinceramente, prefiro ser leve.
(Este comentário não tem como objetivo menosprezar o programa "O Aprendiz" e seus participantes, é apenas meu ponto de vista.)

Me anima saber que existem pessoas que fazem coisas por amor e que não levam jeito e não querem ser Gregor Samsa.




sexta-feira, 29 de maio de 2009

Memórias de uma suicida

Lá estava ela. Enviesada na cama, mirando o teto mofado de seu quarto que há muito precisava de reforma.
Indiscutivelmente sua vida era um caos, um erro que já durava 28 anos.
O pai morreu assassinado por divida de jogo na porta de sua casa há 13 anos; a mãe desequilibrada foi parar num manicômio e a irmã mais nova juntou-se com um velho rico e estava fora do Brasil.
Pobre mulher! Era uma inútil diante do mundo. Carregava no ombro uma vida traumática e solitária.
Fora uma criança frágil e introspectiva, mas sabia que tudo isso era culpa da própria mãe. Quando ainda tinha saúde mental, a humilhava publicamente por ser tímida, dizia que a menina era boba e que nunca seria nada na vida. Realmente, não era. Mas a mágoa maior era do pai, que preferia sua irmã menor descaradamente. Aos passeios de domingo com as duas meninas exibia a garotinha linda que era sua filha mais nova, deixando-a de lado, quase invisível. Um ou outro de seus amigos a olhava e dizia: “que menininha fofa esta outra”, mas ela sabia que era por dó. Não tinha a metade da graça e do encanto de sua irmãzinha.
Amigos teve dois ou três, mas perdeu o contato quando terminou o segundo grau.
Na escola sempre foi medíocre. Nunca se destacou em nenhuma matéria. Só se destacava na escola por sua magreza exagerada, motivo pelo qual ganhou vários apelidos que preferiu esquecer.
Era medíocre também na vida amorosa. Não era bonita, mas tinha seus encantos. Tinha a pele parda, as canelas finas e o cabelo crespo que armava facilmente, mas tinha seios bonitos. “Ninguém é desgraçado por completo” – pensou ela ainda mirando o teto mofado.
Nunca teve um namorado. Alguns casos, alguns amantes, mas nenhum quis levá-la para conhecer a família, nem planejar um futuro e um “felizes para sempre”.
Sua vida era realmente um caos!
Nunca fora nada para ninguém. Era invisível aos olhos do mundo. Não tinha quem a amasse, não tinha família, não tinha amigos, nunca fora motivo de orgulho para ninguém, sua vida social era ausente e sua vida sexual frustrada. Nos últimos três anos o contato mais íntimo que tinha era com sua depiladora. Achou graça no seu pensamento e começou a gargalhar sozinha. De desespero.
Levantou-se, caminhou pela casa juntando todos os tarjas pretas existentes naquele muquifo, pegou uma garrafa de vodka barata que já estava pela metade e decidira se desfazer da farsa que era sua vida. Colocou o Jim Morrisson para cantar, quis celebrar seus últimos momentos de vida com ele. Voltou para a cama e lentamente foi alternando sua morte: um gole de vodka e um comprimido, um gole de vodka e um comprimido...
Sabia que este seria seu fim. Sabia que quando o efeito viesse não teria vizinhos para socorrer, nem amigos para levá-la ao hospital, era avulsa no mundo.
“This is the end beautiful friend; This is the end My only friend, the end”, cantava Jim aos berros.
Enquanto esperava sua morte olhava para o teto mofado. Não estava arrependida. Sentiu-se grande diante do mundo. Teve orgulho de si mesma.
Só queria se livrar da dor que era viver.